
Lição 8 · Apocalipse 3.14-22
Laodiceia: ela se achava, mas…
As coisas podem não ser como pensamos
domingo, 25 de outubro de 2026
“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.” (Ap 3.15-16)
Para ler e meditar durante a semana
- D — Sl 139 — Deus conhece o íntimo do ser humano
- S — Ap 3.14-22 — As coisas podem não ser como pensamos
- T — Rm 12.1-21 — Vivamos recomendados a presente era
- Q — Ap 18 — A ruína da Babilônia
- Q — Sl 115 — Contra os ídolos inúteis
- S — Mt 10.40-42 — As recompensas
- S — Ap 3.20 — O Amém bate à porta
Introdução
A cidade de Laodiceia ficava no vale do rio Lico, próximo a Colossos e Hierápolis. Seu nome foi dado por Antíoco II, em homenagem à sua esposa, Laodice. A cidade foi conquistada pelos romanos em 133 a.C. Foi construído em Laodiceia um sistema de tráfego comercial, de leste a oeste e de norte a sul. Isso a favoreceu, trazendo muita prosperidade, tornando-a o grande centro bancário de toda a região. Os agricultores locais haviam desenvolvido uma raça de ovelha negra cuja lã era de qualidade superior. Havia na cidade também uma escola de medicina que se especializou no cuidado dos olhos. Lá eles desenvolveram um colírio eficaz para infecção nos olhos, conhecido popularmente como pó frígio.
Com tantos recursos, os laodicenses se orgulhavam de sua riqueza. Esse é o contexto da carta que, como destinatária a igreja apática, indiferente e morna de Laodiceia (v.16). A tal ponto iludida e cega quanto a si mesma (v.17), ela recebe a repreensão mais severa se comparada com as outras igrejas. Sua condição pode ser exemplificada na descrição que Jesus faz dos ímpios: “Vós sois o sal da terra, ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt 5.13). Não vem nenhum elogio a essa igreja, por isso, esta imagem forte serve de alerta ao arrependimento.
I. Jesus conhece
A carta inicia com a identificação de Jesus como “o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus” (Ap 3.14). A designação tripla de Jesus mais uma vez referida neste livro remete ao anúncio do Deus Trino de que está redimindo todas as coisas (Ap 1.8; 22.13). Primeiro, Jesus é o Amém, termo da língua hebraica para “ser verdadeiro” ou “ser fiel”. O próprio Jesus usa essa palavra a respeito de si mesmo e de sua mensagem. O evangelho de Mateus, que foi lido primeiramente por judeus, apresenta o termo muitas vezes (Mt 5.18,26; 6.2,5,13,16; 8.10; 10.15,23,42; 11.11; 16.28; 17.20; 18.3,13,18; 19.23,28; 21.21,31; 23.36; 24.2,34,47; 25.12,40,45; 26.13,21,34). Em 2Coríntios 1.20, Paulo diz que todas as promessas de Deus têm o seu “amém” em Cristo. Ou seja, Jesus é a confirmação e a consumação da obra de Deus, o Amém para todas as promessas de Deus em Israel. Nesse sentido, ao obedecer plenamente à vontade do Pai e completar a sua obra, Jesus confirma que, nele, todas as coisas, no céu e na terra, têm sua finalidade e objetivo últimos. Ou, nas palavras de Paulo, o propósito “[…] de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10).
Segundo, Jesus é a testemunha fiel, ou seja, Jesus apresenta Deus ao mundo (Rm 3.25-26), testemunhando que Deus não pode mentir e que nenhuma de suas promises cai por terra. A ressurreição é o maior sinal de que Deus é fiel às suas promessas (Rm 4.25).
Terceiro, Jesus é “o princípio da criação de Deus”, e tal referência pode ser a Jesus como o Alfa, aquele que estava com Deus no princípio (Jo 1.1). Ou também a designação pode referir-se a Jesus ressurreto dentre os mortos como o primeiro homem da nova criação, o primeiro sinal desse novo mundo que está surgindo. Quando Jesus saiu do túmulo no terceiro dia, no domingo da ressurreição, “[…] de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20).
Após se identificar, Jesus afirma o seu conhecimento da situação da igreja em Laodiceia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quêra Deus fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.15-16).
Craig R. Koester (Revelation) argumenta que a linguagem usada aqui é de hospitalidade. A igreja não estava cumprindo o mandamento novo (Rm 12.10-13; Hb 13.2; 1Pe 4.9-10; Tg 2.15-16). O vinho era uma bebida servida em momentos de recepção de convidados e visitantes, sendo recebido com neve ou aquecido com água quente. Quente ou frio, o vinho é uma bebida agradável; morno, não é. Um anfitrião que oferece vinho morno já falhou em sua recepção e insultou seu convidado. Essa mesma linguagem de hospitalidade é usada por Jesus no versículo 20.
Jesus reconhece na igreja essa falta de hospitalidade. Em vez de viverem uma vida de serviço, autossacrifício e imitação do Senhor, hospedando e amando, eles se viam como autossuficientes, fechados em si mesmos e satisfeitos consigo mesmos. Dizendo: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma” (Ap 3.17). A situação da igreja é de autoengano. Ela se vê rica, relevante, poderosa, pelos motivos errados, provavelmente pela sua relação com a Babilônia (Ap 17.3-8). O seu relacionamento com o mundo a tornou morna, e essa mornidão levou Jesus a ter náuseas, sinal de repúdio. Se não houver mudança, essa igreja continuará em seu estado de miséria: “[…] nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (v.17).
II. Jesus aconselha e repreende
Depois do diagnóstico daquele que sonda mentes e corações (Sl 139; Pv 21.2; Jr 17.10), Jesus aconselha a igreja. Ele não dá ordens, pois o conselho é dado em um tom de hospitalidade, pode resolver a situação. Esse conselho é dado a uma igreja obstinada e indisciplinada, ou, nas palavras da revelação, a um povo de alma cerviz (Dt 9.6; At 7.51).
“Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas” (Ap 3.18). Jesus aconselha a igreja a abandonar as riquezas oferecidas por este mundo, porque a cidade dos homens edificada sobre o pecado irá cair (Ap 18). O conselho é para que os laodicenses comprem de Cristo o que eles têm procurado no lugar errado.
Jesus oferece três bens específicos: ouro, roupas e colírio para olhos, justamente o que eles se gabavam de possuir. Esses bens suprem o estado de pobreza, cegueira e nudez (v.17). Essa passagem e as anteriores fazem alusão ao livro Cântico dos Cânticos. A noiva de Cristo está em um estado de indolência e, consequentemente, é indiferente e apática às investidas do noivo (Ct 5.2-6). O chamado é para que a igreja, desde já, busque se adornar como uma noiva, preparando-se para as bodas do Cordeiro (Ap 19.5-10). Paulo descreve o alvo do amor e da entrega de Cristo pela igreja nos seguintes termos: “[…] para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). E a mesma razão como amigo do noivo, é a mesma que “[…] ouve a voz dele por ela e a regozija-se. Essa alegria que se realiza nas bodas do Cordeiro” (2Co 11.2).
Jesus exorta a igreja de Laodiceia: “Aos que eu amo, repreendo e disciplino. Sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3.19). Jesus mostra o seu amor zeloso, que não admite concorrência. Não é possível servir a dois senhores (Mt 6.24). Por isso, Jesus afirma que é por causa de seu amor que ele disciplina. A disciplina é aplicada aos da família (Hb 12.6), não aos de fora dela. Nesse sentido, Jesus busca a correção daqueles por quem ele derramou o seu sangue, portanto, o seu chamado é um chamado de mudança. Arrependam-se! Essa repreensão é para que a igreja de Laodiceia olhe para a sua situação miserável, lamente por isso, volte para o noivo e busque tudo de que ela precisa para a vida e para a piedade (2Pe 1.3). Esse chamado, portanto, é para imitar Jesus em seu amor zeloso e sacrificial, que leva a atitudes práticas de hospitalidade. É disso que o versículo 20 trata.
III. Jesus bate à porta
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3.20).
A cena lembra Cântico dos Cânticos (5.2). A noiva acorda ao som do seu amado batendo à sua porta e de sua voz a chamá-la. O amado chega para despertar sua amada. Ele está desejoso por comunhão e diz: “Deixe-me entrar, meu amor, minha querida, minha pomba sem defeito, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e os meus cabelos, das gotas da noite” (Ct 5.2, NAA). Jesus, o Amado, agora bate à porta da igreja de Laodiceia para desfrutar de uma festa de amor com os poucos remanescentes. Jesus promete começar a festa com qualquer um que venha abrir a porta para jantar com ele, e ele traz consigo tudo de que eles necessitam, contanto que não o recebam com desdém, dando-lhes as sobras do dia anterior, dando menos do que o amor esperado de uma noiva devotada e ansiosa pela chegada do seu noivo.
A cena final é um casamento real, e a esposa do Rei se assenta no trono do reino. “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono” (v.21). Na linguagem paulina, a igreja é coedificadora com Cristo (Rm 8.17). Ou seja, tudo que é do nosso esposo é nosso. Essa verdade fez Paulo exclamar: “[…] tudo é vosso, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (1Co 3.22-23).
IV. Jesus promete
Como os laodicenses podem comprar, se são pobres? Como alguém pode se tornar rico comprando? O convite simbólico de Jesus ecoa Isaías 55.1, que promete comida, vinho e leite àqueles que vêm comprar e não têm dinheiro. Como comenta Peter Leithart: “Não há custo para o que Jesus oferece. Ele abre um mercado e já cobriu o custo de todas as compras” (Revelation 1-11, T&T Clark, p.205). Jesus bate à porta e a igreja tem apenas de abri-la para receber esses dons.
O cume da carta e do livro é a última promessa: sentar-se com Cristo no trono. Jesus, o Amém, o princípio da criação de Deus, convida a igreja de Laodiceia para a festa do Cordeiro e, finalmente, para as bodas. A promessa não é para uma minoria, mas para todo aquele que abrir a porta, ouvir a voz do Amado e participar da comunhão com ele. A vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos, o novo céu e a nova terra, a nova Jerusalém que desce do céu — tudo isso é o desfecho da história que se inicia com o Amém fiel, passa pela porta aberta ao arrependido e termina no trono compartilhado. Como Paulo, cremos que a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória (2Co 4.17). A esperança do trono compartilhado não nos faz fugir do sofrimento de hoje, mas nos sustenta nele, porque sabemos que aquele que começou a boa obra em nós há de completá-la (Fp 1.6).
Conclusão
A igreja de Laodiceia estava cega quanto à sua própria situação. Seu relacionamento com a idolatria a cegou para a verdade a respeito de si mesma e de seu relacionamento com Jesus. Como diz o salmo 115 ao descrever a situação daqueles que adoram ídolos, os laodicenses acabaram se tornando como os ídolos inúteis. A igreja de Laodiceia se tornou o que ela adorava: infeliz, miserável, pobre, cega e nua. E, mesmo nessa situação desesperadora, a ponto de Jesus repudiar tal postura, ela se recusava a receber de forma hospitaleira as investidas do noivo para renová-la, restaurá-la e fazer dela uma noiva ataviada para o dia da consumação do casamento.
Aplicação
- 1
“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas” (v.22). O chamado de Jesus para a comunhão não é, definitivamente, para os de fora da comunidade dos santos. É, antes, para aqueles que estão numa situação de adultério espiritual e que devem se arrepender.
- 2
Avalie hoje se você tem vivido de aparências ou tem aberto a porta do coração à voz de Cristo. Não seja como Laodiceia: uma igreja que se acha rica e, na verdade, é miserável aos olhos de Deus.
- 3
Compre de Cristo o que você não encontra no mercado deste mundo: ouro purificado no fogo, vestiduras brancas e colírio para os olhos. Faça isso antes que a porta deixe de ser batida.
Fixando o aprendizado
Perguntas e respostas
Pergunta 1 de 8