
Lição 1 · Apocalipse 1
Revelação de Jesus Cristo
O sofrimento e a vitória final de seu povo
domingo, 30 de agosto de 2026
“Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos.” (Ap 1.17-18)
Para ler e meditar durante a semana
- D — Sl 2 — O reinado do Messias
- S — Zc 3 — O sumo sacerdote Josué
- T — Ef 4.1-16 — A unidade do Espírito
- Q — Zc 4 — O candelabro de ouro
- Q — Dn 7.1-8 — O sonho sobre os quatro animais
- S — Rm 13.11-14 — O dia está próximo
- S — Dn 7.9-27 — As visões de Daniel
Introdução
“Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João” (Ap 1.1). Apocalipse é a primeira palavra que aparece no livro. Significa “desvelar”, “tirar o véu” ou “revelação” — o mesmo radical grego usado na Septuaginta em Levítico 18.6-19 para o descobrimento da nudez.
Apocalipse não é apenas, como comumente imaginamos, o registro de eventos sobre destruição, desastres naturais ou barbáries. Antes, o livro contém a exposição da mensagem de Deus e de seu Reino. Contudo, quem é capaz de revelá-la? No capítulo 5, João chora ao perceber que ninguém foi achado digno de abrir o livro e quebrar os selos. A resposta de um dos anciãos foi: “Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (Ap 5.5). Temos aqui, portanto, a revelação do Messias da linhagem real de Davi, o Leão da Tribo de Judá.
A forma apocalíptica era um tipo específico de literatura que se tornou popular na visão de mundo judaica do século 2º a.C. A literatura profética do Antigo Testamento — Daniel, Ezequiel, Isaías, Zacarias e Salmos — era o material usado para compor esse gênero. Uma das características dessa literatura é a de um visionário que relata como recebeu uma revelação de Deus.
N.T. Wright escreve: “Revelação — a ideia, e este livro — é baseada na antiga crença judaica em que a esfera de ser e operação de Deus (‘céu’) e nossa esfera (‘terra’) não são, afinal, separados por um grande abismo” (Revelation for Everyone. John Knox Press, p.3). Isso quer dizer que Deus está presente e continua agindo na História. O Deus de Israel não está em silêncio; antes, deu autoridade a Jesus Cristo para “mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer” (Ap 1.1-2).
I. Felizes os que leem e os que ouvem
João descreve a si mesmo como servo que dá testemunho da Palavra de Deus, de onde vem a palavra mártir. Nesse sentido, o testemunho cristão envolve viver disposto ao julgamento, ao sofrimento e à morte para testemunhar da ressurreição de Jesus Cristo às nações (Fp 3.10-11).
No verso 3, João escreve a primeira das sete bem-aventuranças presentes no livro (1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7,14). Ele descreve seu livro como uma profecia, termo que repete sete vezes. A referência é ao texto escrito que João produz (1.3; 22.7,10,18-19). Como essa profecia deveria ser lida publicamente em voz alta nas igrejas da Ásia, felizes serão os que derem ouvidos à revelação do reino de Deus.
Nesse contexto, profecia não se refere à predição de eventos futuros, mas à procedência divina dessa revelação. João é o profeta que tem acesso ao conselho secreto de Deus: ele olha por detrás do véu e dá testemunho do que viu e ouviu.
João escreve que “o tempo está próximo” (v.3). Ele se refere assim a uma profecia do futuro próximo, um anúncio de que o fim também é um novo começo — o nascer de um novo mundo que teve seu início na ressurreição do Messias e está a caminho da consumação (1Co 15.24-25).
II. Saudação às sete igrejas da Ásia
Além de ser literatura apocalíptica e profética, o terceiro gênero literário do livro é epistolar. João se dirige a sete igrejas que se encontram na Ásia (Ap 1.4). Os destinatários da carta que recebem a bênção (v.4-8) são igrejas dos “confins da terra”, como anunciado na missão apostólica: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Ou seja, são igrejas em território gentílico.
A bênção é proveniente “da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono” (Ap 1.4). A primeira parte da bênção, provavelmente, faz referência ao Deus Pai, o começo, o meio e o fim de todas as coisas. Os sete Espíritos fazem referência ao Espírito do Senhor na visão de Zacarias (4.1-14). Nesse sentido, o número sete significa plenitude, estando o Espírito de Cristo plenamente presente, enchendo todas as coisas. O apóstolo Paulo esclarece isso ao escrever aos efésios a respeito daquele “que desceu sendo também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4.10).
O objetivo da carta, portanto, é apresentar Jesus Cristo como “a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra” (Ap 1.5). Ademais, apresentar o Messias de Israel como aquele “[...] que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai [...]” (Ap 1.5-6). Isto é, apresentar Jesus como o Noivo que nos ama, Redentor e Sacrifício pelos nossos pecados, Rei deste novo reino e Sacerdote que nos convida a participar com ele de seu domínio, glorificando ao Deus e Pai por toda a eternidade.
O verso 7 pode ser considerado o tema do livro: a sua vinda gloriosa e o seu triunfo final. No Antigo Testamento, Daniel fala de suas visões a esse respeito (Dn 7.13-14). Não é mais César ou Domiciano, nem qualquer outro “senhor” que reina. No mundo mediterrâneo, o imperador era considerado o senhor do mundo, aquele que exigia submissão e lealdade de seus súditos por todo o império. Quando ele fazia, pessoalmente, uma visita oficial a uma colônia ou província, a palavra para sua presença real era parousia, que significa visitação.
Jesus é o verdadeiro soberano sobre as nações (Fp 2.9-11). No dia da sua visitação, todos os que não se prostrarem ante o crucificado (Sl 2), transpassado pelas nossas transgressões, se lamentarão por causa dele (Zc 12.10). Quem afirma isso é o “Alfa e o Ômega”, referência à primeira e à última letra do alfabeto grego, demonstrando que o plano do Todo-Poderoso se concretizará, porque “estas palavras são fiéis e verdadeiras” (Ap 22.6).
III. A visão de Jesus ressurreto
João se apresenta como “irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus” (Ap 1.9). É de suma importância observar o pano de fundo da escrita desse livro. O autor está exilado na ilha de Patmos “[...] por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1.9) e escreve uma carta circular às igrejas da Ásia que estão passando por dificuldades derivadas de perseguições. João os conforta, anima, repreende e, principalmente, encoraja ao testemunhar suas visões da realidade divina que já entrou no tempo presente e entrará definitivamente neste mundo no futuro.
Sua visão se dá no dia do Senhor, possível referência aos encontros dos primeiros cristãos no domingo, primeiro dia da semana, como sinal da ressurreição e da nova criação. João estava no Espírito, isto é, provavelmente liderando o serviço de adoração ao Senhor quando, diante da assembleia, Jesus o chama e lhe ordena que escreva suas visões em um livro e o envie às sete igrejas.
Ao virar-se, João descreve a sua visão do Jesus ressurreto. A linguagem descritiva de João é de tirar o fôlego. As imagens vívidas dessa revelação fazem alusão a diversos elementos presentes no Antigo Testamento, e o próprio Jesus retira o véu de sobre alguns mistérios (v.20) para nos auxiliar na compreensão das coisas que João viu, “as que são, e as que hão de acontecer depois destas” (v.19).
Antes que João veja Jesus no meio dos candeeiros, ele vê os próprios candeeiros, que representam as sete igrejas (v.20). Percebe-se que a primeira visão é um vislumbre da igreja, uma visão dos candeeiros, não do guardião dos candeeiros. O ponto aqui é que chegamos a conhecer Jesus quando, primeiro, conhecemos seu corpo visível no mundo.
Neste lugar que nos remete ao tabernáculo ou ao templo está “um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força” (v.13-16). Jesus está presente com e na igreja, sustentando-a e intercedendo por ela, fazendo com que sua chama não se apague (Zc 4.1-2).
Como afirma Austin Farrer: “Jesus é o vaso de óleo que abastece as lâmpadas. Ele é o ungido, cuja unção e iluminação, pelo Espírito, flui para as igrejas” (The Revelation of St. John the Divine. Clarendon, p. 65-66).
Ao vê-lo, João fica estarrecido, a mesma experiência que Moisés teve diante da sarça ardente, que teve Jacó quando lutou durante toda a noite com o anjo de Deus e que Jó viveu quando Deus lhe falou através de um redemoinho. C.S. Lewis descreve essa experiência estarrecedora em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, sobre a possibilidade de as crianças se encontrarem com Aslam: “Se conseguir manter-se em pé diante dele, olhá-lo cara a cara, já é o caso para dar-lhe os parabéns. [...] Porque, se alguém chegar na frente de Aslam sem sentir medo, ou é o mais valente de todos ou então é completo tolo. — Mas ele é tão perigoso assim? — perguntou Lúcia. — Perigoso? — disse o Sr. Castor. — Então não ouviu o que a Sra. Castor acabou de dizer? Claro que é, perigosíssimo. Mas acontece que é bom. Ele é rei” (As Crônicas de Nárnia. Martins Fontes, p.137-138).
Ao se deparar com o Rei dos Reis e Senhor dos senhores, João cai como morto. Contudo, Jesus o levanta com sua mão direita, como um sinal de autoridade, e o comissiona a enviar a mensagem às sete estrelas, que são os anjos das sete igrejas (v.20). Jesus o encoraja ao apontar para sua vitória sobre a morte e o inferno: “[...] despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15). A vitória de Cristo é a vitória de sua morte e de sua ressurreição: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (v.18).
Conclusão
O que Jesus está assegurando para João é: “Não tenha medo, João! Eu sou o primeiro e o último. Eu reino soberano. Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Escreva sobre isso para o meu povo, eu estou presente com ele. Em meio à perseguição, ao sofrimento e à morte, dê ao meu povo esperança”.
Para o cristão, o sofrimento é uma realidade. O próprio Jesus declarou a respeito disso: “No mundo, passais por aflições” (Jo 16.33). Nos séculos 1º e 2º d.C., as aflições sofridas eram intensas: acusações como insurreição, ateísmo, canibalismo e incesto eram feitas contra os cristãos. Foram tempos em que a igreja encontrou oposição feroz e muitos pagaram com a vida o preço de serem fiéis ao Messias.
Contudo, Jesus também afirma: “tende bom ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16.33). As visões de João são uma revelação dessa vitória e da esperança que o cristão pode ter em meio às tribulações de um mundo que já está derrotado, mas ainda não totalmente. Por isso, não tema, pequeno rebanho: eis que Jesus está conosco até a consumação dos séculos.
Aplicação
- 1
Em meio ao sofrimento, angústia e aflição, tenha olhos escatológicos: olhe a realidade à luz da revelação de Jesus Cristo e veja o que está por detrás do véu.
- 2
Participe dos sofrimentos de Cristo, glorie-se na tribulação. O sofrimento não é sinal de que Deus nos abandonou. Ao contrário, é um dos sinais da verdadeira filiação. Se sofremos com ele, também com ele reinaremos.
- 3
Ore para que Deus lhe dê olhos para ver.
Resumo em imagens
Percorra as seis lâminas na ordem para revisar a lição inteira.
- 101/06
- 202/06
- 303/06
- 404/06
- 505/06
- 606/06
Fixando o aprendizado
Perguntas e respostas
Pergunta 1 de 7