
Lição 2 · Apocalipse 2.1-7
Éfeso: lembra e volta
Boa teologia com boa prática. Aí sim.
domingo, 06 de setembro de 2026
“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras.” (Ap 2.4-5)
Para ler e meditar durante a semana
- D — 1Jo 3.11-24 — O amor se evidencia
- S — 1Jo 4.7-21 — Deus é amor
- T — 2Jo 1-13 — Amar e obedecer
- Q — 1Co 13.1-13 — A extravagância do amor
- Q — Rm 12.9-21 — Quem ama tolera
- S — Lc 10.25-37 — Apenas ame
- S — Jo 13.1-20 — Amor sem medida
Introdução
Curiosamente, foi na cidade de Éfeso que o imperador Teodósio II reuniu, em 431 d.C., o 3º Concílio Ecumênico, no qual Maria foi denominada mãe de Deus, o que resultou na definitiva queda da deusa Ártemis, ou Diana dos efésios. Até lá, porém, muitas batalhas foram travadas contra os pacíficos cristãos. Esse é um dos palcos mais importantes do mundo antigo, que revela o conflito do mundo contra Cristo e a sua igreja.
Nesta lição, veremos a respeito do grande desafio de, em meio a esses conflitos, mantermos uma vida doutrinariamente saudável e, ao mesmo tempo, genuíno amor a Deus, aos irmãos na fé e, também, aos inimigos.
I. A cidade de Éfeso
Uma cidade rica, de relevância histórica, religiosa e comercial. Essas poderiam ser características para descrever Éfeso como um lugar próspero, feliz e justo, se não houvesse ali uma igreja de Cristo para “atrapalhar” esse cenário otimista. A igreja de Cristo sempre terá em seu DNA uma natureza adversa ao mundo, seus regimes, política, ideologia, vícios e pecados, porque, como representante do reino dos céus, ela sempre estará em choque, em guerra contra a reivindicação que o mundo faz para si, de prometer felicidade, significado e realização para os homens. A igreja, contudo, prega o evangelho e revela que somente Deus, em Cristo Jesus, traz ao ser humano as bênçãos eternas.
Seguindo as informações de Kistemaker (Apocalipse. Cultura Cristã, p. 149-151), percebemos o desafio que a igreja de Éfeso enfrentava numa sociedade próspera, de boa reputação, porém hostil ao cristianismo e que se recusava a rejeitar o pecado e a idolatria. A riqueza da cidade vinha principalmente de um agitado comércio para a realidade do século 1º. Era uma cidade portuária, utilizada por Roma como um centro de administração e para a confecção de artigos religiosos (At 19.24,31,38).
Ali se encontrava um templo dedicado a Ártemis, ou Diana, e um teatro que comportava cerca de 24.000 pessoas. Duas características que ressaltam a difícil realidade para a igreja de Cristo naquele lugar eram a idolatria e a imoralidade. O templo de Éfeso era um propulsor para a propagação da religião do Império Romano, de maneira que em 89-90 d.C. a cidade inaugurou o templo dos Sebastoi, proveniente da família Vespasiano-Tito-Domiciano.
Conforme destacamos na primeira lição, embora vivessem em paz, os judeus isolavam cada vez mais os cristãos, que ficavam, então, expostos à perseguição romana. Pelo que entendemos da carta de Apocalipse, a igreja também estava se mantendo pura e afastada, mas a imoralidade não deixava de ser um desafio para ela. Heráclito, filósofo nascido em Éfeso, afirmou que nem entre os animais se via tamanha promiscuidade como nos cidadãos efésios. Vejamos, portanto, o que Cristo tem a dizer a essa igreja que se mantinha firme, apesar dos desafios.
II. Identidade de Cristo
Cristo se identifica de duas maneiras: “[...] aquele que conserva na mão direita as sete estrelas” e aquele “[...] que anda no meio dos sete candeeiros de ouro”. As sete estrelas são os sete anjos e os sete candelabros são as sete igrejas (1.20). Jesus segura as sete estrelas em sua mão direita (1.16), o que enaltece a autoridade de Cristo sobre todos os seres celestiais sob o seu comando.
Em todo o Antigo Testamento, a mão direita revela soberania, e Cristo apresenta a realidade de que os anjos mensageiros estão obedecendo a ordens expressas, apenas comunicando a palavra que ele tinha para cada uma das igrejas. Dessa maneira, ele não é apenas Senhor da igreja em seu sentido universal (a igreja espalhada pela Terra), mas ele é Senhor de cada igreja local, da menor até a maior (1.13).
Por isso a segunda designação: “Ele anda entre os sete candeeiros”, ou seja, ele está presente com a igreja. Conforme Osborne, “a imagem de ‘andando’ combina as ideias de preocupação pela igreja e autoridade sobre ela” (Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, p. 123). Cristo está atento e sempre atualizado com tudo o que está acontecendo dentro da igreja, de modo que o seu diagnóstico nunca é impreciso a respeito de sua real condição, e é por isso que ele faz as observações positivas e negativas necessárias para cada igreja.
III. Fiel na doutrina
Cristo faz cinco elogios à igreja de Éfeso. Ela é: 1) laboriosa; 2) perseverante; 3) não suporta homens maus; 4) põe à prova os falsos apóstolos; e 5) suporta as provações. Esses elogios são muito significativos. Conforme vimos, considerando o difícil contexto de perseguição, seria muito mais fácil para uma igreja sobreviver se ela trocasse a sua fidelidade confessional e rigor ético por uma atitude mais relativista, elástica e transigente com os erros, vícios e imundícies de sua cidade.
Mas disso a igreja de Éfeso não poderia ser acusada. Tendo sido pastoreada por Paulo, Timóteo e João, não é de admirar que houvesse se tornado tão firme doutrinariamente e resistente contra as heresias, imoralidades e ameaças de perseguição. Além disso, Éfeso era a “igreja mãe”, o ponto de partida do ministério missionário expansionista de Paulo na Ásia.
Mesmo tendo se passado cerca de três décadas desde sua fundação, a igreja se mantinha firme. E ainda que tenha sofrido perdas devido à perseguição, talvez até martírio, ainda se mantinha fiel. Inácio de Antioquia escreveu no século 1º a essa mesma igreja, elogiando a sua constância, relatando que, por boca do então pastor da igreja, Onésimo, fora informado que “vós todos viveis segundo a verdade, que nenhuma heresia se aninha entre vós e que não dais ouvido a ninguém que vos fale de qualquer coisa, a não ser de Jesus Cristo na verdade” (“Inácio aos efésios”. In: Padres apostólicos. São Paulo: Paulus, p. 84).
A fibra da igreja em sua defesa doutrinária e resistência contra os falsos ensinos era realmente admirável, e a expressão final do v.3 revela isso: “[...] não te deixaste esmorecer”. A palavra esmorecer é tradução de kekopiakes, que significa desânimo, ou cansaço, causado após longo período de esforço sacrificial. “A palavra é utilizada aqui figuradamente para a exaustão espiritual resultante da perseguição e das lutas contra os falsos mestres, mas também triunfado sobre os hereges e mantido sua vigilância espiritual” (Osborne, p. 126).
IV. Tenho, porém, contra ti
Como nenhuma igreja é infalível, Éfeso precisava responder pelo seu desvio. Por nos amar, Deus não nos livra de sua disciplina quando não vivemos um cristianismo autêntico. Com o fim de nos aperfeiçoar, ele nos adverte contra o pecado (Pv 3.12; 13.24; Hb 12.4-11).
Jesus tinha algo “contra” a igreja, e essa expressão torna-se padrão para descrever os problemas morais nas outras cartas também, com o fim de alertar sobre o inevitável julgamento vindouro.
O “primeiro amor” descrito no v.4 sugere aquele amor do início da caminhada cristã. Ou seja, quando a igreja foi fundada pelo apóstolo Paulo, ela vivia dias de intensa consagração, disposição e voluntariedade. Ela expressava seu amor a Deus e ao próximo de modo vigoroso e, ainda assim, resistia às tentações da cidade e aos falsos apóstolos. Contudo, com o passar das décadas, sofrendo privações e intensa perseguição, embora a igreja tenha se mantido doutrinariamente fiel, enrijeceu-se, talvez por autodefesa ou apatia. Mas o fato é que Éfeso deixou de exercitar a principal e maior das virtudes, que é o amor (1Co 13.13; 1Jo 4.16-18).
Em 1Coríntios 13 aprendemos que qualquer que seja o nosso talento, as nossas obras ou realizações, sem amor, tudo se perde, nada tem qualquer proveito para Deus. O “primeiro amor” se refere aos dois grandes mandamentos, de amar a Deus e ao próximo (Mt 22.37-40); e Jesus já alertara que o amor “se esfriará” (Mt 24.12-14). Ou seja, aquele que ama a Deus, necessariamente, deve amar o seu irmão (1Jo 4.20); não há cristianismo sem a expressão vertical e horizontal do amor simultaneamente. G.K. Beale comenta sobre os efésios que “um amor apaixonado por Cristo nos leva a amar os de fora e a buscar ganhá-los. Isso eles tinham perdido” (Brado de vitória. Cultura Cristã, p. 51).
V. Chamado ao arrependimento
A rememoração é a oportunidade de corrigir o que ainda precisa ser corrigido. Essa é a oportunidade que Cristo oferece aos efésios: “Lembra-te, pois, de onde caíste”, no v.5. Conforme Kistemaker, “[...] o arrependimento afeta a existência humana em sua totalidade; atinge o âmago do ser e afeta todo o relacionamento externo com Deus e com o próximo. Arrepender-se é dar as costas ao pecado; fé é voltar-se para Deus.” (Atos, vol. 1. Cultura Cristã, p. 184).
Quando a igreja é acusada de pecado, não deveria haver demora em se arrepender, pois se presume que, falando com pessoas “espirituais”, haverá seriedade na consideração do próprio pecado e atendimento ao chamado da Palavra de Deus. Mas Cristo é paciente, amável e nos dá tempo para consideração. Ele nos conhece e, por isso, nos trata segundo a sua misericórdia e ensina aos pastores para que ajam de igual modo (2Tm 2.24-26). O que não podemos esquecer, no entanto, é que ele não espera para sempre e não permitirá que o seu nome seja envergonhado para sempre por uma igreja que se recusa a ouvi-lo.
Por isso, essa é uma prática que se espera do cristão durante toda a sua caminhada. Não haverá um tempo, nesta realidade em que vivemos, em que não mais precisaremos nos arrepender. Como pecadores, estamos sempre sujeitos à corrupção, e ninguém sabe disso melhor que o Senhor da igreja. Como disse Calvino: “[...] depois de iniciado o arrependimento, precisamos dar-lhe continuidade durante a nossa vida toda, e não abandoná-lo, até à morte, se é que desejamos descansar com segurança em Cristo e nele permanecer” (As Institutas, III.3.20).
Após o chamado para o arrependimento, Cristo também alerta quanto a uma ameaça: “[...] se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”. O candeeiro representa luz (Is 42.6-7; 49.6; Zc 4.2,11), e, como Israel serviu de luz para o mundo, assim a igreja também servia e, particularmente, a igreja de Éfeso. Mas até essa importante igreja perderia a sua luz, ou deixaria de ser igreja, caso não se arrependesse.
Na carta já citada, escrita uns dez anos depois, Inácio de Antioquia descreve positivamente a igreja, dando a entender que Éfeso levou a sério o chamado de Cristo e se arrependeu. Se foi assim, ela não se exaltou nem se considerou autossuficiente, mas humilhou-se e voltou à prática do amor.
VI. Promessa
No v.6 o Senhor ainda os elogia porque odiavam as obras dos nicolaítas. Um resumo do verdadeiro discípulo é amar aquilo que Deus ama e odiar aquilo que Deus também odeia. Os nicolaítas são identificados por Irineu de Lião como seguidores de Nicolau que, segundo ele, foi um dos diáconos ordenados em Atos 6 que, depois, se desviou da fé (Contra as Heresias, I.26.3). Mas não sabemos se essa afirmação é segura. O fato importante a destacar é que as igrejas da Ásia estavam sob constante ataque de heresias e, ao passo que Pérgamo e Tiatira estavam cedendo, Éfeso se mantinha leal ao evangelho, mantendo a pureza doutrinária.
Por fim, a promessa de Jesus a Éfeso sela o encorajamento que ocorre em todas as sete cartas. A construção inicial segue a fórmula padrão do Senhor Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, v.7a (Mt 11.15; 13.9,43; Mc 7.16). A promessa é para aqueles que vencerem, a esses “[...] dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (v.7b).
A promessa que Adão e Eva perderam (Gn 2.9; 3.22,24) torna-se atual para aqueles que se mantêm nos caminhos do Senhor até o fim, não apenas em fidelidade doutrinária, mas vivendo a expressão real do amor de Jesus (Ap 22.2,14,19). O acesso à árvore da vida ilustra, portanto, os efeitos da desobediência provocados pelos nossos primeiros pais. Nas palavras de Osborne: “No Éden final, a maldição do primeiro Éden é revertida e a ‘vida’ eterna é agora concedida ao povo de Deus” (Apocalipse, p. 136). Aquele espaço de acesso exclusivo aos vencedores é reservado para todos aqueles que perseverarem até o fim. Esses serão recompensados, vivendo para sempre num lugar completamente alheio ao pecado, onde não mais haverá sequer o cheiro de morte. A vida tem a palavra final.
Conclusão
A igreja de Éfeso possuía boa teologia, fidelidade confessional e experiência acumulada. Além disso, era a referência na Ásia Menor para as outras igrejas mais jovens.
Porém, todas essas boas características não são suficientes aos olhos perscrutadores de Cristo. Ele quer que a igreja expresse aquilo que é mais evidente nele mesmo, isto é, o amor. Uma igreja que não tem amor será reprovada aos olhos de Deus.
Aplicação
- 1
Há um crescente interesse pelo estudo teológico nas igrejas evangélicas em geral, porém, isso não indica, necessariamente, crescimento no amor sincero e autêntico a Deus e ao próximo.
- 2
Cresça em conhecimento, mas, se isso não estiver gerando mais amor em você, desconfie, porque algo está errado. Aprender de Jesus é aprender a amar.
- 3
Lembre-se de onde caiu: recorde a alegria dos primeiros dias com Cristo, arrependa-se e volte à prática das primeiras obras nesta semana, de forma concreta com alguém da sua igreja.
Resumo em imagens
Percorra as seis lâminas na ordem para revisar a lição inteira.
- 101/06
- 202/06
- 303/06
- 404/06
- 505/06
- 606/06
Fixando o aprendizado
Perguntas e respostas
Pergunta 1 de 8